10 razões para utilizar Software Livre na Educação

Há alguns anos atrás, Software Livre e “Open Source” eram conceitos que surgiam quase exclusivamente associados a indíviduos que, na melhor das hipóteses, eram caracterizados como excêntricos apaixonados pela informática capazes de produzir um discurso povoado por termos técnicos com um valor quase esotérico para a generalidade dos utilizadores. É preciso não esquecer que muitos destes últimos descobriam o mundo dos computadores porque sentiam que as janelas e os menus, os botões e os ícones constituíam, finalmente, uma linguagem acessível. Iniciar a exploração do mundo dos computadores era um sonho que muitos ainda consideravam desnecessário ou mesmo fora do seu alcance e, portanto, a simples referência à possibilidade de utilizar linha de comandos numa janela de Terminal, por exemplo, assemelhava-se ao seu pior pesadelo. Entretanto, é tempo de descobrir, discutir e compreender que valores e princípios mais altos se levantam.

Nos últimos anos, acompanhando o crescente interesse global pelo Software Livre, tem progressivamente aumentado o número de instituições de ensino, de todos os níveis de escolaridade, de governos, de todos os continentes, de empresas, de vários ramos, e de organizações sem fins lucrativos que têm vindo a adoptar Software Livre, contribuindo para o seu desenvolvimento ou divulgando a sua existência e importância. Actualmente, o Software Livre e Aberto constitui uma tendência para o futuro que ninguém podem ignorar. As questões éticas envolvidas, sem menosprezar as vantagens económicas e outras vantagens estratégicas, relevam a Educação como uma área primordial de intervenção.

Para os mais desatentos, aqui ficam alguns exemplos e argumentos que ajudam a compreender a actual importância do Software Livre para a Educação. Os exemplos escolhidos não constituem casos únicos, existem mais e, felizmente, a tendência é crescente…

1. Os sistemas operativos Linux constituem já uma solução adoptada no âmbito de políticas nacionais de apetrechamento informático em sistemas públicos de ensino, incluindo países com sistemas de ensino de grande escala: Em 2009, todos os computadores de escolas russas deverão correr sistemas operativos Linux (fonte: news.bbc.co.uk/2/hi/technology/7034828.stm); O projecto brasileiro ProInfo (do Ministério da Educação brasileiro) utiliza o “Linux Educacional 2.0″ (distribuição baseada no Debian) e estão a prever, até ao final de 2008, ter 29.000 laboratórios em utilização, servindo 36 milhões de alunos, crescendo depois até aos 53.000 laboratórios, até ao final de 2009, servindo 52 milhões de alunos (fonte: piacentini.livejournal.com/7871.html)

2. Os sistemas operativos Linux constituem uma alternativa com qualidade aos sistemas operativos Windows, a imensa redução obtida nos custos das licenças permite que países com recursos mais limitados possam realizar investimentos importantes no apetrechamento informático das suas escolas: a República da Macedónia está a instalar 180.000 computadores com GNU/Linux Ubuntu e outro Software Livre em todas as escolas (fonte: osor.eu/news/macedonia-to-supply-all-school-with-gnu-linux/); Nas Filipinas, já foram instalados 13.000 computadores com Fedora nas escolas secundárias e seguem-se mais 10.000 com Ubuntu (fonte: www.computerworld.com.au/index.php/id;1163450117)

3. O Linux permite que qualquer instituição/organização possa desenvolver um sistema operativo completo (distribuições), mais adequado à realidade a que se destina (i.e. linguagem e ícones utilizados estão adaptados ao meio cultural, o gnuLinex tem uma versão para escolas e outra para administração pública da região, etc.) e dando resposta a objectivos estratégicos (i.e. maior independência tecnológica, criação de riqueza tecnológica, impacto económico e social que ultrapassa o meio local ou regional, fomento do tecido empresarial e serviços relacionados na região, etc) e a princípios éticos (Na página do Guadalinex afirma-se que “La Administración no debe favorecer intereses empresariales concretos proponiendo una distribución comercial de las ya existentes.”) que vão mais além da simples redução de custos. O gnuLinex da Junta da Extremadura (www.linex.org/) e o Guadalinex da Junta da Andalucia (www.guadalinex.org) são apenas dois exemplos, proximos da nossa realidade, de como regiões com parcos recursos conseguem desenvolver o seu proprio sistema operativo e do imenso impacto desta iniciativa, sobretudo nos organismos públicos e na educação. Assinale-se que a Extremadura, uma das regiões mais pobres da Comunidade Europeia, já possui um computador com gnuLinex instalado por cada 2 alunos do ensino não superior.

4. O Software Livre e Aberto já possui uma qualidade e diversidade suficientes para dar resposta a muitas das actuais necessidades tecnológicas do ensino universitário ou superior. Na Índia, descrevendo o cenário existente no Parshvanath College of Engineering: “Our college is a heavy user of open source technologies, and we try to adopt this system wherever possible. The open source technologies in use range from compilers, assemblers, scripting tools, database servers, Web servers, mail servers, office suites, circuit simulation software, mathematical tools and CAD systems.” (source: www.expresscomputeronline.com/20050418/management02.shtml)

5. Na área específica do software de apoio ao ensino, existem já aplicações de Software Livre e Aberto que competem directamente como outras soluções proprietárias. Em alguns casos, a alternativa Livre constitui a única solução possível, dados os custos proibitivos das aplicações proprietárias equivalentes. Noutros, a escolha é feita por motivos de ordem ética ou por razões estratégicas. Todos partilham as vantagens de uma opção com qualidade inquestionável e com uma relação custo-benefício bastante mais favorável às instituições de ensino: o Moodle (moodle.org/), um LMS (learning management system) que permite construir campus virtuais ou páginas web de apoio ao ensino em cursos e disciplinas, é utilizado em instituições como a University of California, Los Angeles (USA), Universidad de los Andes (Venezuela), University of Washington (USA), University of Texas at San Antonio (USA), University of Northern Virginia (USA), University of New Mexico, College of Education (USA), University of Minnesota (USA), University of Glasgow (UK), Dublin City University (Ireland), Birmingham City University (UK), entre muitas outras de variados níveis de ensino (fonte: moodle.org/sites/index.php?country=all)

6. Os pacotes de aplicações de produtividade, vulgarmente designadas por Office, como o Microsoft Office, são indispensáveis ao trabalho diário de professores e alunos. A sua aplicação e utilidade é transversal a todos os níveis de ensino e áreas. O OpenOffice é já um incontornável pacote de Software Livre que inclui aplicações para processamento de texto, folha de cálculo, apresentação, base de dados, edição de imagem ou fórmulas matemáticas. A sua qualidade e custo zero ajuda a compreender porque é que todos os 70.000 alunos e 7000 professores da área educativa de Genebra (Suíça) estão actualmente a migrar para a sua utilização, abandonando totalmente outras soluções proprietárias equivalentes como o Microsoft Office (fonte: osor.eu/news/ch-geneva-schools-completely-switch-to-open-source), ou porque é que os serviços administrativos e 22.000 alunos da University of Southern Denmark tomaram o mesmo caminho (fonte: wiki.services.openoffice.org/wiki/Major_OpenOffice.org_Deployments)

7. O Edubuntu (edubuntu.org/) é um sistema operativo completo, baseado na popular distribuição Ubuntu, concebido especificamente a pensar na educação. Constitui um esforço colectivo de milhares de pessoas distribuídas por todo o mundo no sentido de construir um sistema operativo com finalidades educativas. Pode ser utilizado em casa ou na escola e outros centros dedicados ao ensino e formação, pode descarregá-lo livremente a partir do site ou pedir que lhe enviem gratuitamente por correio uma cópia. Para além do sistema operativo, o Edubuntu é distribuído com vários programas úteis e educativos, foi concebido para permitir a sua fácil instalação e o acesso, via Internet, a milhares de outros programas. Tudo gratuitamente… E existem outros exemplos.

8. O software educativo, aquele que foi concebido para o apoio à aprendizagem das crianças e jovens, é um elemento essencial para avaliarmos o potencial educativo e a importância do Software Livre na área da Educação. Para já, mencionamos dois exemplos de grande qualidade que já tivemos o prazer de ver nas mãos de crianças: o Tux Paint (www.tuxpaint.org/), uma aplicação de desenho para crianças, e o Gcompris (gcompris.net/), um pacote diversificado de jogos educativos e exercícios lúdicos para crianças até aos 10 anos de idade, mas existem muitos outros exemplos de aplicações educativas Livres que abordam áreas tão diversas como o sistema solar (Celestia: www.shatters.net/celestia/), tabela periódica (Kalzium – edu.kde.org/kalzium/) ou construções geométicas (kig – edu.kde.org/kig/)... Entretanto, apenas como ponto de partida para começar a explorar, sugere-se a visita ao Schoolforge (www.schoolforge.net/), um repositório de aplicações educativas.

9. Em 1998, ficou famosa a frase de Bill Gates, a propósito da pirataria na China, que dizia algo como: “Já que vão roubar/piratear, então preferimos que roubem/pirateiem os nossos programas. Ficarão como que viciados e nós arranjaremos uma forma de fazer com que paguem algures na próxima década.” (No original: “As long as they are going to steal it, we want them to steal ours. They’ll get sort of addicted, and then we’ll somehow figure out how to collect sometime in the next decade.” fonte: news.com.com/2100-1023-212942.html?legacy=cnet). No mundo ocidental, Portugal incluído, a única diferença é que são os próprios governos e os sistemas nacionais de ensino público, assim como os revendedores e lojas de informática, que distribuem a “droga”. Poderá parecer excessivo para alguns mas acompanhem-me no seguinte raciocínio, é talvez simplista mas ilustra bem o problema: uma criança que descobre o seu primeiro computador, em casa ou na escola, através de um sistema operativo Windows, que durante toda a sua vida pré-escolar e escolar se habitua a utilizar sistemas operativos Windows, qual é a probabilidade de não vir a ser um cliente da Microsoft? Ensinar competências na área das TIC, preparar os jovens para a Sociedade do Conhecimento, não é sinónimo de ensinar competências Microsoft, promover o desenvolvimento de fluência tecnológica não significa angariar clientes para a Microsoft.

10. Um pouco por toda a Rede, surgem sinais sobre as escolhas que podemos fazer para o nosso futuro colectivo: a Wikipedia como um projecto colaborativo de partilha de conhecimento; o Linux como um projecto colaborativo de desenvolvimento de software; as licenças Creative Commons; o Opencourseware do MIT e projectos similares; etc. Como afirmou Lawrence Lessig, estamos perante a escolha entre a actualmente dominante “cultura da permissão” ou uma “cultura livre”. O cenário é pois bem mais alargado e com implicações mais profundas, não se limitando apenas à escolha entre Software Livre e proprietário. Na educação, as questões da liberdade não são recentes e estão longe de ser pacíficas. Se é certo que o acesso e o ensino gratuitos são peças fundamentais para a construção de uma “educação livre”, a liberdade não é só uma questão de preço. A liberdade na educação também está a passar por aqui…

Depois de ler as linhas acima, talvez compreenda melhor porque é que para mim, e para muitos outros, a escolha do software que tenho instalado nos computadores com que trabalho é também, ou sobretudo, uma questão ética, constitui uma afirmação sobre o mundo em que vivemos e como nele escolhemos viver.