Alguns mitos sobre o Magalhães

Por um questão de honestidade, devo começar por estabelecer alguns pontos prévios: concordo e apoio medidas que visem disseminar os meios informáticos por toda a sociedade e elevar os níveis globais de fluência tecnológica; não concordo com muitas das opções implementadas nos projectos e-escolas e e-escolinhas.

O meu quotidiano profissional e pessoal permite-me reforçar com regularidade esta convicção na importância dos meios informáticos e redes de comunicação no presente e futuro. Apesar de gostar de ter uma visão mais global sobre estas temáticas, acredito que o país necessita urgentemente de reforçar as suas competências nesta área, sobretudo junto das gerações mais jovens, se quisermos que as nossas crianças e alunos sejam agentes activos nesse futuro. É exactamente porque me situo aqui que discordo de muitas das opções tomadas pelo Governo relativamente aos programas e-escolas e e-escolinhas.

Os caminhos que escolhemos agora trilhar não são inocentes e vão determinar o tipo de futuro que vamos encontrar ou ajudar a construir. É exactamente porque acredito na importância e urgência de projectos deste género que sinto necessidade de partilhar aqui comentários e dúvidas suscitados por alguns “mitos” criados em torno do Magalhães.

 

Mito 1 – O Magalhães é um projecto para as escolas portuguesas   

No momento em que escrevo estas palavras (Janeiro de 2009), o meu sobrinho Vicente ainda não recebeu o seu Magalhães. Vicente está no 1º ano do 1º Ciclo e só não desespera pelo seu computador porque vive numa casa e pertencer a uma família onde os meios informáticos são tão naturais e estão tão presentes como os livros e os filmes. O meu sobrinho é um privilegiado, provavelmente o mesmo não acontece com as restantes 450 mil pessoas que aguardam pelo seu Magalhães.

“Até ao final do ano passado, o programa promovido pelo Governo em parceria com a JP Sá Couto entregou cerca de 50 mil unidades do portátil, cerca de 10% face aos 500 mil prometidos na altura“ (fonte. diariodigital.sapo.pt/dinheiro_digital/news.asp?section_id=3&id_news=110088)

Como na altura do Natal encontrei o Magalhães em todas as superfícies comerciais que se dedicam a vender material informático e surgem já notícias que dão conta da exportação do computador para a Líbia e Venezuela (fonte: ultimahora.publico.clix.pt/noticia.aspx?id=1339822) ou Timor (fonte: tsf.sapo.pt/PaginaInicial/Internacional/Interior.aspx?content_id=1050772), confesso que não percebo bem as prioridades deste projecto. Ou melhor, compreendo agora com muita clareza que o Magalhães é apenas um negócio e obedece a prioridades comerciais.

Já percebi que seria mais rápido comprar o Magalhães do que esperar pela entrega através da escola, resta saber se  não haverá crianças líbias ou venezuelanas a receber um Magalhães ainda antes do meu sobrinho. O Magalhães pode ser embebido em boas intenções e belas palavras mas a balança comercial e as prateleiras das lojas são prioritárias.

 

Mito 2 – O Magalhães é o primeiro portátil português

Como sou dono de um computador  Tsunami,  uma marca que existe há já vários anos no mercado e que pertence à mesma empresa que fabrica os Magalhães, fiquei bastante surpreso com a afirmação. Inicialmente, julguei que “ser português” significava que a essência do computador era de origem nacional, que os diversos componentes do computador (i.e. motherboard, processador, memória, etc.) eram construídos em Portugal. Posteriormente, percebi que “ser português” significa que as peças vêm feitas do estrangeiro e são montadas em Portugal. É claro que agora fiquei mais confuso porque não percebo porque é que o Magalhães é mais português que o meu Tsunami…

Não obstante, pode haver outra explicação para o epíteto. O Magalhães é um computador em que as aparências e o aspecto exterior são  sobrevalorizados em relação ao interior, envolve a montagem em território nacional de componentes fabricados no estrangeiro,  é um produto de consumo com  qualidade discutível, tem o nome de uma figura da História de Portugal que teve de procurar no estrangeiro o apoio para concretizar a sua visão e é da responsabilidade de uma empresa com problemas com o fisco.

“A JP Sá Couto, empresa responsável pela produção dos computadores Magalhães, é arguida num processo de fraude e fuga ao IVA, que terá lesado o Estado em mais de cinco milhões de euros “(fonte: sol.sapo.pt/PaginaInicial/Sociedade/Interior.aspx?content_id=112195)

Se calhar mais português do que isto era mesmo impossível…

 

Mito 3 – O Magalhães é um bom computador

Ora aqui está um tópico que suscita sempre algumas polémicas e apaixonadas discussões. Para avaliar a real qualidade da proposta Magalhães é necessário ter em conta outros factores para além da simples qualidade/desempenho dos componentes.  No entanto, é no mínimo instrutivo comparar o Magalhães com dois dos seus concorrentes directos existententes nas lojas portuguesas.

Magalhães (Linux + Windows) Asus Eee PC 901 Windows Acer Aspire One 150 Azul Windows O Magalhães…
Processador Intel Celeron (1x 900 MHz) Intel Atom N270 (1x 1.60GHz) Intel Atom N270 (1x 1.60GHz) Tem o processador mais fraco
RAM 1GB DDR2 1GB DDR2 1GB DDR2 Tem memória RAM equivalente aos outros
Armazenamento 30GB 12GB 160GB Tem um valor de armazenamento algo enganador pois            só possui 10 GB para guardar dados e documentos do            utilizador.
Ecrã TFT 8.9″ WSVGA (1024×600) TFT 8.9″ WSVGA (1024×600) TFT 8.9″ WSVGA (1024×600) Tem ecrã equivalente.
Sistema gráfico Intel Graphics Media Accelerator 915 Intel Graphics Media Accelerator 945 Tem o sistema gráfico mais fraco.
Conectividade 2x USB 2.0 3x USB 2.0
1x VGA
3x USB 2.0
1x VGA
Não permite ligar a um projector multimédia            e tem menos 1 entrada USB.
Rede Wireless LAN 802.11g
Rede 10/100
Wireless LAN 802.11 Draft-N
Rede            10/100
Bluetooth
Wireless LAN 802.11b/g
Rede 10/100
Não permite ligação Bluetooth            mas é equivalente ao modelo da Acer.
Bateria e autonomia Iões de Lítio (Li-Ion) com 4 células

3-4 horasIões de Lítio (Li-Ion) com 6 células

7 horasIões de Lítio (Li-Ion) com 3 célulasÉ pior que o Asus e equivalente ao Acer.WebcamWebCam Integrada de 0.37 Mega-Pixel (VGA)WebCam Integrada de 1.3 Megapixel            (SXGA)
Card
Touch pad multi-touchWebCam Integrada de 0.37 Mega-Pixel (VGA)É pior que o Asus e equivalente ao Acer.OutrosLeitor de cartões: SD CardLeitor de cartões SDLeitor de cartões 5 em 1: SD, Memory Stick,            Memory Stick Pro, MultiMedia Card e xD-Picture CardÉ pior que o Acer e equivalente ao Asus.Peso1,4 Kg1,1Kg1,26KgÉ o mais pesadoPreço (Euros) nas lojas onlineWorten: 349

FNAC: 285

RP: 282Worten: 349

FNAC: 369

RP: 339Worten

FNAC: 299

RP: 299Tem um preço escandaloso na Worten e nunca            seria a minha opção de compra.

 

Existem outros netbooks e outras características que poderiam ainda ser comparadas. Todavia, julgo que identifico as características principais e escolhi dois netbooks da mesma classe ou aproximada e existentes no mercado nacional. Eu utilizo um Asus EEE 901 White Linux, é onde estou a escrever estas palavras, e comprei-o antes das férias do Verão por 339 Euros.

Gratuitamente ou por 50 euros, o Magalhães é uma boa opção mas quanto pagamos, enquanto país, e quais são as reais contrapartidas oferecidas pelo governo português para conseguir colocar o Magalhães a esse preço? É que dado o valor comercial do equipamento, quando comparado com os seus concorrentes nas prateleiras das lojas, e as suas características técnicas tenho sérias dúvidas se  não teria sido preferido optar por outra solução, mesmo que envolvesse um acréscimo de custos.

 

Mito 4 – O Magalhães é um projecto que resulta de boas intenções e vontades

A Microsoft e a Intel são dois parceiros importantes, privilegiados, do projecto Magalhães. São duas empresas multinacionais que, independentemente de assumirem uma maior ou menor intervenção e responsabilidade social, visam gerar lucros. Esta finalidade, em si mesma, não é necessariamente má ou pouco recomendável. No entanto, é difícil acreditar que estas empresas possam participar no Magalhães sem ter qualquer expectativa de lucro. Ou seja, reforçando a ideia que o Magalhães é, em primeiro lugar, um projecto comercial que visa um mercado específico.

Se a preocupação não fosse o lucro e a lógica não fosse a economicista, existiam outros caminhos que poderiam ser trilhados pelo Magalhães.  Não foi possível discutir e analisar os custos e oportunidades de cada uma das alternativas possíveis, não sabemos se esta é realmente a opção menos onerosa para Portugal e, estrategicamente, a mais adequada. Contudo, uma certeza existe, para a Intel e Microsoft o Magalhães é um bom negócio.

O OLPC (www.laptop.org), One Laptop Per Child, surgiu da visão de um futuro onde todas as crianças dos países teriam acesso a um computador e à Internet, viabilizando um caminho que permitisse quebrar o ciclo vicioso de subdesenvolvimento que teima em infectar imensas regiões do globo. Apesar de algumas críticas e divergência, sobretudo visíveis quando o projecto anunciou que iria permitir a escolha entre o original sistema operativo Livre Sugar OS e o Windows XP, é pacífico que o projecto é gerido por uma organização sem fins lucrativos e com preocupações educacionais.

Apesar da concorrência surgida em 2008 com vários netbooks a povoarem o mercado, o projecto continua vivo e aparenta boa saúde, confirmando-se já a entrega de mais de um milhão de portáteis por todo o mundo, incluindo países como o Uruguai, EUA, Perú, Gana, Etiópia, Afeganistão ou Mongólia, para citar apenas alguns exemplos. Uma das razões para este sucesso é a clara separação entre projectos comerciais e projectos educacionais. O OLPC é um projecto educacional.

Se quiser satisfazer a sua curiosidade, pode acompanhar a distribuição geográfica do OLPC: maps.google.com/maps/ms?hl=en&ptab=2&ie=UTF8&oe=UTF8&msa=0&msid=107887635573341686661.00045a8f74844ef1681f8&ll=19.973349,6.679688&spn=153.704027,316.40625&z=2

Talvez seja agora a altura de recordar que a Intel chegou a fazer parte do consórcio responsável pelo OLPC, abandonando o mesmo depois de divergências com Nicholas Negroponte que exigia que a Intel parasse de desviar possíveis clientes do OLPC, dificultando a viabilidade económica do projecto, através de contratos para o seu ClassmatePC. A Intel abandonou o projecto porque a sua estratégia comercial não era compatível com a estratégia do OLPC, um projecto educacional sem fins lucrativos que visa disseminar computadores portáteis por todas as crianças do mundo.

É claro que a Intel continuou o seu caminho, em Portugal, por exemplo, encontrou um terreno fértil para a sua visão comercial e apoia a construção de uma versão local do seu ClassmatePC conhecida por Magalhães…

Quanto à parceria com a Microsoft, o caso não suscita menos dúvidas e preocupações. No capítulo I do Programa do XVII Governo Constitucional, no seu ponto II – UM PLANO TECNOLÓGICO PARA UMA AGENDA DE CRESCIMENTO, surge a promoção de sistemas operativos não proprietários open source sempre que apropriado como uma das medidas enunciadas (fonte: www.portugal.gov.pt/NR/rdonlyres/631A5B3F-5470-4AD7-AE0F-D8324A3AF401/0/ProgramaGovernoXVII.pdf). Ou seja, não deixa de ser algo irónico que o Magalhães seja distribuído com Windows XP.

É verdade que o computador também vem com o Caixa Mágica, um sistema operativo GNU/Linux de origem nacional, mas só com muita má vontade se pode considerar que colocar os dois sistemas operativos no portátil é uma medida que visa a “promoção” de um sistema operativo open source. Além do mais, existiam outras opções Livres, como o Edubuntu ou o Sugar OS, mais apropriadas para uso em contexto educativo.

Para além de duvidar de uma estratégia que continua a ajudar a perpetuar o domínio e predominância do sistema operativo proprietário Windows, é legítimo questionar sobre os custos, não só financeiros, desta opção. O que lucra a Microsoft com este negócio para além da angariação de “novos clientes”?

Lembro-me, de forma não inocente, de uma famosa frase de Bill Gates, proferida em 1998, a propósito do uso não autorizado de software da Microsoft na China:  “As long as they are going to steal it, we want them to steal ours. They’ll get sort of addicted, and then we’ll somehow figure out how to collect sometime in the next decade.” (fonte: news.com.com/2100-1023-212942.html?legacy=cnet). Pelos vistos, em Portugal, é o próprio Governo quem ajuda a criar o “vício”…

 

Preferia que Portugal tivesse optado pelo OLPC, demonstrando inclusivamente um espírito de solidariedade inernacional.

Preferia que os portáteis não fossem distribuídos com um sistema operativo proprietário.